A minha rotina estava estabelecida. Quimio à sexta, sábado, domingo e segunda, dias negros para deixar passar e aguentar à bronca, e terça já estava preparada e capacitada para trabalhar. E assim foi até Outubro. Trabalhei até à véspera de ser operada, a 11 de Outubro, penso eu.
Durante estes dias vivi situações fantásticas e muito tristes, como um sorriso de confiança vindo de um desconhecido ao ver-me careca, admirações e reparos de crianças e adultos, mal formados, coitados, nas salas de espera dos centros de saúde, palavras de alento por parte dos médicos e dos colegas de trabalho, ao apoio incondicional e soberbamente genuíno da família e dos amigos. De facto, e perdoem-me todos os demais, mas a minha vida não teria sido fantástica em dias tão terríveis, se não existisse a família que tenho hoje e os amigos que ainda tenho e faço questão de ter sempre. Tenho de dizer que não houve um dia, uma hora, um minuto que não tivesse alguém do meu lado disposto a viver comigo a minha vida tal e qual ela era e sempre com a consciência da difícil tarefa de a tornar mais leve e alegre. E foram de facto dias de muita felicidade, acreditem, apesar de tudo. Honestamente, orgulho-me de durante estes 5 anos ter tido uma vida o mais normal possível, o mais feliz e alegre possível e acima de tudo o mais preenchida possível, também graças a todos eles.
Lembro-me que na altura não desisti nem desistiram de mim e ainda frequentei as consultas de um médico japonês que me orientou em termos de alimentação e fitoterapia chinesa, contactei várias clínicas no estrangeiro e cheguei a ir a uma consulta à Clínica Universitária de Navarra, em Pamplona. O resumo de todas estas incursões: estava muto bem orientada, diziam.
O grande dia chegou, mas antes disso ainda tive um extremo e triste episódio, travado com o serviço de cirurgia plástica do hospital S. João. Se era lá que estava a ser tratada, obviamente seria lá que seria operada. Foi quando conheci o quarto maravilhoso ser humano ligado à medicina, a ginecologista que me iria operar.
Depois de ter reunido com a cirurgia plástica, chegaram à conclusão que eu tinha todas as condições para fazer a reconstrução imediata do peito. Deram-me esta execlente notícia.
No entanto, por motivos e guerras internas, consoante vim a saber mais tarde e também por falta de escrúpulos, e agora já sou eu que o digo... e repito as vezes que forem necessárias, três dias antes de dar entrada no hospital para ser operada e na última reunião que teria com a esta especialidade, dois médicos horrorosos e sem um pingo de humanidade, disseram-me da forma mais fria que possam imaginar que a possibilidade de recontrução imediata estava fora de hipótese, virando-me as costas logo de seguida e recusando-se a dar-me mais explicações. Ora, eu fiquei completamente na merda, mas ainda assim tive forças para entrar de rompante na sala de reuniões onde quase todo o serviço estava reunido, seguida da minha mãe, que nunca teve papas na língua, e foi o cabo dos trabalhos. Uma cena mesmo muito feia e triste. Lembro-me ainda que a médica cirurgiã que estava destacada para me operar, e que tinha sido dispensada de tal tarefa na mesma altura e com a mesma indiferença com que me disseram que já não ia fazer a reconstrução, até chorou de tanta revolta.
Pois é, se até então o dia mais ansiado era aquele em que finalmente iria tirar o bichinho de dentro de mim, a partir desse dia passou a ser o mais temido.
E agora mandem calar os violinos que ouvem ao fundo, porque aquilo que vou dizer é mesmo verdade e digo-o sem qualquer vergonha. Os anjos existem mesmo! Na véspera de dar entrada no São João, à noite recebo uma chamada no telemóvel de uma médica, o quinto maravilhoso ser humano ligado à medicina que conheci entretanto, que estava de licença no hospital e que tinha ouvido falar no meu caso e como é óbvio, sendo ela um bom ser humano, achou uma barbaridade o que o serviço de cirurgia plástica me fez. E o que ela tinha para me dizer? Que estava disposta e que me iria fazer a reconstrução imediata caso eu estivesse disponível para ser operada na privada, uma vez que ela naquele momento não o podia fazer no hospital. Imediatamente disse que sim e a alegria foi tal que, mais uma vez, desculpem, mas não consigo descrever.
Passados cinco dias, julgo, lá estava eu, preparadíssima para entrar no blobco, mas não sem antes pedir ao meu anjo da guarda, com muita vontade e convicção para me deixar morrer caso não fosse eu ficar curada.
Porto
"Quem vem e atravessa o rio, junto à Serra do Pilar, vê um velho casario que se estende até ao mar. Quem te vê ao vir da ponte és cascata sanjoanina erigida sobre um monte, no meio da neblina, por ruelas e calçadas, da Ribeira até à Foz, por pedras sujas e gastas e lampiões tristes e sós. Esse teu ar grave e sério dum rosto de cantaria que nos oculta o mistério dessa luz bela e sombria. Ver-te assim abandonado nesse timbre pardacento, nesse teu jeito fechado de quem mói um sentimento... e é sempre a primeira vez, em cada regresso a casa, rever-te nessa altivez de milhafre ferido na asa." - Carlos Tê
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
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