... Entretanto, tinha pela frente a mais difícil tarefa de todas, a de dar a notícia aos meus pais. Uma bomba! Ambos ficaram incrédulos, imaginem só qual o significado da doença cancro para alguém que ronda os 70 anos! Imediatamente disseram que estavam comigo, que fariam o que fosse preciso para eu ultrapassar a doença, e que tudo ia correr pelo melhor. Representei pela primeira vez com uma inigualável perfeição, um papel que sempre me foi familiar: o de estar completamente na merda e não deixar que ninguém, ninguém se aperceba. Porquê? Não sei bem. Talvez por uma questão de defesa (esta não é nova), e um pouco de incapacidade que sei que tenho em lidar com as minhas fraquezas emocionais.
Lembro-me que nesse dia, os meus sobrinhos P. e R. também lá estavam. Pedi que eles saíssem da sala, pois precisava de falar com os avós. Fizeram-no sem contestar, mas eu esqueci-me de um pequeno livro que me tinham dado no hospital, acerca do cancro da mama, no aparador do hall da entrada e eles viram-no. Perceberam logo e nesse mesmo dia já perguntavam às mães e irmãos mais velhos o que se passava comigo. Conversei com eles e esta foi a segunda tarefa mais difícil naqueles dias.
Ainda antes de a noite cair, fui ao cabeleireiro cortar o meu longo e lindo cabelo. Cortei-o pelos ombros.
A outra minha irmã não estava no país e quando chegou, o meu sobrinho B. deu-lhe a notícia. Ela enviou-me esta sms: "O homem vale pelo que é e não pelo que faz. E tu és uma grande mulher e vais conseguir ultrapassar tudo isto. Estou contigo." Até então, a relação com esta minha irmã era muito fria e distante. Não me perguntem a razão. Nem eu, nem ela sabemos responder. Aconteceu. Aconteceu até este dia. Costumo dizer e sentir que valeu a pena ter cancro para reencontrar a minha irmã mais velha. Hoje somos muito amigas e cúmplices. Valeu por isto...
Os meus amigos, os meus fantásticos amigos foram aparecendo e ficando ao longo dos dias. Um dia ainda hei-de escrever sobre eles. Vale a pena.
O namorado foi o único que se foi. E não vou escrever sobre ele. Não vale a pena.
Até que conheci o terceiro ser humano maravilhoso ligado à medicina, a minha médica oncológica. Comecei os tratamentos de quimioterapia. Uma invasão cruel e violenta do meu corpo. Fiquei careca em menos de 15 dias. Aliás, mal o cabelo começou a cair, fui rapá-lo. E não é que me ficava bem? A minha cabeça é perfeita!!! Sempre gostei de uma certa irreverêncoa no look como forma de expressão. E nunca me esquecerei da deliciosa sensação que é sentir o vento roçar-nos na cabeça...
Como uma das minhas mais inteligentes decisões que tomei foi continuar a trabalhar até que as forças não me permitissem mais fazê-lo, ainda experimentei algumas perucas a pedido da mami e do meu chefe da altura, um ser humano maravilhoso, mas que já tinha conhecido há alguns anos. Odiei as perucas. Que coisa tão artificial. Não, não as quis para mim. Decisão tomada!
Porto
"Quem vem e atravessa o rio, junto à Serra do Pilar, vê um velho casario que se estende até ao mar. Quem te vê ao vir da ponte és cascata sanjoanina erigida sobre um monte, no meio da neblina, por ruelas e calçadas, da Ribeira até à Foz, por pedras sujas e gastas e lampiões tristes e sós. Esse teu ar grave e sério dum rosto de cantaria que nos oculta o mistério dessa luz bela e sombria. Ver-te assim abandonado nesse timbre pardacento, nesse teu jeito fechado de quem mói um sentimento... e é sempre a primeira vez, em cada regresso a casa, rever-te nessa altivez de milhafre ferido na asa." - Carlos Tê
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
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