Porto

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"Quem vem e atravessa o rio, junto à Serra do Pilar, vê um velho casario que se estende até ao mar. Quem te vê ao vir da ponte és cascata sanjoanina erigida sobre um monte, no meio da neblina, por ruelas e calçadas, da Ribeira até à Foz, por pedras sujas e gastas e lampiões tristes e sós. Esse teu ar grave e sério dum rosto de cantaria que nos oculta o mistério dessa luz bela e sombria. Ver-te assim abandonado nesse timbre pardacento, nesse teu jeito fechado de quem mói um sentimento... e é sempre a primeira vez, em cada regresso a casa, rever-te nessa altivez de milhafre ferido na asa." - Carlos Tê

domingo, 24 de outubro de 2010

Eu tenho cancro - parte I

"Eu tenho cancro." A frase que mais me custou pronunciar há 5 anos atrás. E mesmo das primeiras vezes que o fiz, fi-lo quase que obrigada por mim mesma, não me saiu naturalmente, pois não era sentida, ou eu não queria que o fosse. Começou a sê-lo à medida que a fui dizendo e que a rotina dos dias começou a ser diferente, adaptada a quem tem cancro.
Primeiro a notícia. Um choque tremendo, sem dúvida o mais tremendo da minha vida. Poderia dizer que foi como se o mundo caísse em cima de mim, como se me tirassem o tapete debaixo dos pés e de repente eu me visse a cair num imenso abismo, mas, sinceramente, ainda não encontrei uma frase, um conjunto de palavras capazes de descrever o que senti naquele longo momento.
Não que a notícia me tenha apanhado completamente desprevenida. Primeiro comecei por sentir o nódulo na mama, depois fui fazer uma primeira ecografia que deu como inconclusiva, mas nem por isso me safei do raspanete (como se eu tivesse culpa!) e dos avisos ameaçadores da técnica. Depois veio a segunda, e a biópsia, e as palavras sábias do médico que a fez (o primeiro maravilhoso ser humano ligado à medicina que conheci naquela altura)...
De facto e como pessoa inteligente que sei que sou, tudo indicava para o pior, mas como também sou uma optimista por natureza, a verdade é que nunca deixei de acreditar que o pior não se ia concretizar.
Lembro-me que recebi a notícia num consultório médico no hospital S. João. Lembro-me que desesperei. Sim, naquele instante eu soube o significado de desesperar. Chorei, gritei, pontapiei e esmurrei secretárias, cadeiras e armários. Empurrei pessoas, até que me aninhei a um canto... e chorei mais ainda.
Lembro-me também que uma enfermeira, o segundo maravilhoso ser humano ligado à medicina que eu conheci naquela altura, me orientou para o que me esperaria nos próximos dias. Felizmente que tinha uma das minhas irmãs comigo para ouvir. Eu não ouvi absolutamente nada. E ela levou com toda aquela violência emocional assim, sem estar preparada nem armada para tal.
Acalmei e liguei para o namorado e para a melhor amiga. Imagino que também a eles impus uma responsabilidade que não lhes era devida...
Entretanto, saí do hospital. Que alívio! E de repente, lá estava eu, a pensar que não tinha que ser tudo mau, haveria de existir uma finalidade útil para tudo o que estava a acontecer. Tinha pela frente uma guerra, mas não foi isso o que eu fui pedindo a vida inteira? Desafios para que me conseguisse superar a mim mesma e tornar-me um ser humano melhor? Esta seria a minha oportunidade, de saber quem realmente sou e do que sou capaz. Não quero, detesto aliás, cair em lugares comuns, mas foi mesmo isto que me passou pela cabeça. Disto lembro-me eu e foi neste instante que tudo mudou. O desespero passou ao sentido de pelo menos tentar, ao sentido de responsabilidade perante a vida e ao sentido de querer lutar...

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